O turnaround da Duratex


A Duratex é um bom exemplo de turnaround e mudança de mindset dentro de uma companhia. Por muito tempo era vista como uma empresa que investia muito e investia mal. Mesmo nos melhores momentos da economia brasileira (2010-2014), a empresa sofria para apresentar retornos para os acionistas que superassem o seu custo de capital.

A partir de 2016 houve uma reciclagem importante na diretoria, liderada pelo atual CEO Antonio Joaquim (tornou-se CEO em março de 2013).  Entraram Henrique Haddad (CFO), Marcelo Izzo (VP de Deca) e Henrique Marcondes (VP de Madeira), entre outros. As mudanças começaram a surtir efeito rapidamente.

Primeiro no discurso: de uma empresa muito focada em receita e Ebitda, passamos a interagir com uma empresa muito mais orientada a geração de caixa, otimização da capacidade instalada e retorno sobre o capital investido. A mudança de discurso logo se traduziu em ações concretas de geração de valor para os acionistas. 

Vamos relembrar os desinvestimentos e fechamentos de capacidade que foram anunciados:

2016-2019
Alienação de uma floresta de eucalipto em São Paulo para a Fibria por R$ 74,8 milhões (dezembro 2016); alienação de 39,5 mil hectares de terras e florestas para a Suzano no valor de R$ 1,1 bi (fevereiro 2018); fechamento das operações produtivas de chuveiros elétricos na unidade de Tubarão/SC (novembro 2018); fechamento das operações de louças sanitárias em São Leopoldo/RS (julho 2019); encerramento das operações da unidade de revestimento cerâmico de Santa Luiza/MG, que operava sob a marca Cecrisa (setembro 2019); alienação de imóveis rurais e ativos florestais para a Turvinho Participações e Bracell e encerramento da produção de painéis de madeira na unidade de Botucatu (setembro 2019).

As ações acima listadas foram cruciais para a otimização do seu parque fabril e aumento no giro do ativo (receita/imobilizado). Mais importante, os desinvestimentos foram o funding para os novos projetos anunciados desde então.

O primeiro grande movimento de expansão foi a aquisição da Ceusa no final de 2017. Apesar de ser uma aquisição pequena (R$ 280 milhões), a mesma foi marcante por ter representado a entrada da companhia no segmento de revestimento cerâmico. Em meados de 2019 a empresa anunciou a compra da totalidade das ações da Cecrisa (a segunda aquisição; por R$ 539 milhões), também no segmento de revestimento cerâmico. Ambas ocorreram com múltiplos bastante interessantes para a Duratex. Além disso, os clientes da Ceusa/Cecrisa são os mesmos do segmento da Deca (metais, louças e chuveiros elétricos), gerando sinergias comerciais relevantes para a Duratex. 

O segundo grande movimento de expansão, este ainda mais transformacional, foi a criação de uma Joint Venture com a empresa austríaca Lenzing para a produção de celulose solúvel no Triângulo Mineiro (MG). Por se tratar de uma commodity dolarizada cujo principal mercado consumidor é a China, o resultado da Duratex se tornará menos vulnerável às oscilações cíclicas da economia brasileira. Com resultados menos voláteis, o custo de capital da companhia deve cair e com isso o múltiplo justo da ação subir. A Joint Venture começará a gerar receita já no começo de 2022 e em nossa estimativa trata-se da planta de celulose solúvel com menor custo caixa do mundo.

Gostamos da estratégia de expansão da companhia, com bastante disciplina nos múltiplos de aquisição, mantendo a alavancagem financeira em patamares confortáveis e crescendo em segmentos nos quais tem claras vantagens competitivas. Apesar de ter performado muito bem nos últimos anos, acreditamos que a Duratex esteja muita atenta a novas oportunidades de M&A, principalmente no segmento de revestimento cerâmico e Deca (louças e metais sanitários). Além disso, uma nova linha de negócios, dentro do conceito de “Soluções para melhor viver”, também está sendo estudada e pode ser um gatilho relevante para a valorização da ação ao longo de 2021.