IPOs de Saúde: Acelerando a consolidação


Há diversas dúvidas e debates quentes envolvendo o setor de saúde atualmente, mas se existe uma certeza é a aceleração da tendência de consolidação nos próximos anos, mesmo que nenhum novo grupo hospitalar tenha êxito nas suas aberturas de capital. Tanto investidores como beneficiários de planos de saúde deveriam ver com bons olhos esse movimento, que trará eficiência para o setor e evolução na medicina baseada em valor.

A consolidação das seguradoras/operadoras já é uma tendência clara desde a criação da ANS em 2000, puxado agora, em parte, pelo sucesso surpreendente do modelo vertical (no qual a seguradora/operadora é dona do hospital/clínica). Tal movimento tende a se acelerar entre as “redes integradas de cuidados em saúde” – maneira como a Rede D’Or se apresenta aos investidores.

O que é uma “rede integrada” e quem deve ganhar com isso?

O crescimento bem acima da média dos modelos verticais nos últimos anos tem sido um fator importante para impulsionar tanto a consolidação de grupos hospitalares quanto a evolução da medicina baseada em valor. Hoje já parece estar claro para todos que o conflito de interesses entre hospitais e seguradoras, apesar de contribuir para aumentar a oferta de serviços médicos, diversas vezes tem jogado contra o beneficiário e o próprio setor, gerando apenas desperdícios sem melhorias no desfecho clínico.

Fazer medicina baseada em valor sem ter escala – tanto na ponta da operadora/seguradora como na ponta do hospital – é algo praticamente impossível porque são necessários dados estatísticos robustos para possibilitar novos modelos de remuneração. Também é necessário ter um banco de dados rico e um acompanhamento mais amplo do paciente, portanto existe a necessidade de ser integrado e de ter clínicas e laboratórios diagnósticos trabalhando em conjunto com os hospitais e seguradoras, a fim de acompanhar o melhor desfecho para o paciente. Esse movimento tem levado grandes grupos hospitalares a comprar laboratórios e clínicas, bem como grupos grandes de diagnóstico como a Dasa querendo ter mais hospitais para gerar mais valor nas iniciativas de cuidado coordenado junto à SulAmérica por exemplo.

Quem deve ganhar com esse movimento são os beneficiários de saúde e investidores. Do lado dos beneficiários, aqueles que já tem acesso à saúde hoje serão atendidos com foco cada vez maior em desfecho, com menos desperdício e medicina baseada em valor (sem exames desnecessários, controlando o desperdício nos procedimentos médicos, sem livre escolha de médicos, etc.), enquanto quem não tem acesso hoje vai ter chances maiores de ter um plano que cabe no bolso. Isso à medida em que as verticais puxam o aumento de penetração da saúde privada no Brasil. Os investidores por sua vez ganham com a chegada de grandes grupos hospitalares na bolsa, ou seja, novas oportunidades de investimento. Também melhoram o debate ao trazer sua própria perspectiva sobre verticalização virtual, na qual os mesmos protocolos de baixo desperdício são praticados por empresas da mesma cadeia – hospitais, laboratórios e planos de saúde – sem que sejam do mesmo grupo econômico. 

Verticalização Virtual, discurso ou realidade?

Mesmo com a Rede D’Or afirmando categoricamente que não pretende nunca ser verticalizada, muitos ainda se questionam se ela vai fazer esse movimento mais à frente, seja por convicção ou necessidade. No cerne dessa dúvida está um certo ceticismo com a viabilidade da “verticalização virtual”, que seriam maneiras para seguradoras não verticais – por meio de parcerias e novos modelos de remuneração com hospitais – controlar mais os custos, como se fosse vertical. 

Uma das formas de fazer isso é através de novos modelos de remuneração, por exemplo com o empacotamento de procedimentos médicos a um preço fixo, ao invés de simples repasse de custo com margem adicional para o hospital. Nesses novos modelos o hospital ganha se reduzir desperdício e focar no melhor desfecho. Apesar do ceticismo, tais modelos têm crescido bastante e já representam em torno de metade da receita de alguns grandes grupos hospitalares: na Rede D’Or saíram de 36% da receita em 2016 para 53% da receita em 2019, na Kora de 27% em 2016 para 46% em 2020. Para certas seguradoras/operadoras relevantes, a verticalização virtual talvez seja mais factível do que a verticalização de fato, como é o caso de algumas Unimeds, que às vezes por questões políticas tem mais dificuldade de controlar ou policiar desperdícios do que hospitais parceiros, ou seja, a operação vertical é mais cara que a rede credenciada. 

Acreditamos que a verticalização virtual não seja apenas uma realidade, mas será uma necessidade tanto para hospitais que não tem operadora/seguradora de saúde como seguradoras que não tem hospitais próprios ou precisam de parceiros para controlar o custo médico. Enquanto o modelo vertical tem mostrado a sustentabilidade da sua sinistralidade baixa e potencial de gerar acesso à baixa renda, as não verticais devem sim, através da “verticalização virtual”, manter a relevância que tem nos nichos de média e alta renda. A expansão e consolidação acelerada dos grupos hospitalares de excelência, tendo ou não êxito em suas aberturas de capital na bolsa, devem pavimentar novas vias de crescimento e novos produtos/tickets mais acessíveis para as operadoras não verticais nos próximos anos.

Visão geral do mercado endereçável

Existem hoje no Brasil aproximadamente 53 milhões de beneficiários de planos de saúde somando ANS mais algumas autogestões e entidades não reguladas pela ANS. Segundo dados do observatório ANAPH 2020 a população brasileira gastou aproximadamente R$ 200 bilhões em saúde suplementar em 2019, isso sem contar os outros impressionantes R$ 172 bilhões em gastos particulares “out-of-pocket”. Existem diferentes maneiras de segmentar os gastos em saúde suplementar e cada empresa apresenta da sua forma, mas podemos resumir em 3 grupos:

  1. Topo da Pirâmide: tem aproximadamente 8 milhões de beneficiários e R$ 50 bilhões em despesa médica. Hospitais que receitam de R$ 1,5 a quase 2 milhões anuais por leito. Planos que custam mais de R$ 600-800 por mês.
  2. Meio da Pirâmide: tem aproximadamente 38 milhões de beneficiários e R$ 140 bilhões em despesa médica. Hospitais que receitam de R$ 0,7 a 1,3 milhão anuais por leito. Planos que orbitam entre R$ 400-600 por mês.
  3. Base da Pirâmide: tem aproximadamente 7 milhões de beneficiários e R$ 10 bilhões em despesa médica. Hospitais que receitam menos de R$ 700 mil anuais por leito. Planos que custam abaixo de R$ 300 por mês.

Mercado para todos os modelos e papel para todos os investidores

Vemos um espaço saudável tanto para os modelos verticais como para o movimento de “verticalização virtual”. As gigantes verticais Hapvida e GNDI – Notre Dame Intermédica já se provaram desde a abertura de capital, e a fusão de ambas tende a gerar mais oportunidades à frente. A abertura de capital de grupos como a Rede D’Or, que querem se posicionar como o “braço armado das não verticais”, tem potencial para ser também uma ótima oportunidade de investimento visto que ainda tem muito espaço de consolidação em todos os nichos (os maiores grupos não chegam a 10% de participação de mercado).

Tanto o topo como a base da pirâmide parecem ter soluções bem adequadas para o nicho e líderes claros, restando oportunidades na média renda. O Eixo Rio – São Paulo também parece muito competitivo, além de já possuir mais leitos por habitante e lideranças consolidadas; há oportunidades para consolidar a liderança na oferta de leitos não verticais em regiões menos disputadas e com menos leitos por habitante, onde existe mais espaço para crescimento orgânico. Muito vai depender do futuro do sistema Unimed, mas a consolidação dos hospitais, além de inevitável, deve ser positiva para o setor, para o beneficiário e para o investidor.