O exemplo ESG da Natura


Nos últimos anos, o tema ESG tem ganhado relevância no mundo dos investimentos e no mundo corporativo, de forma geral. A sigla ESG advém do termo em inglês Environmental, Social and Governance (em português, Ambiental, Social e Governança) e incorpora questões e critérios que vão além da tradicional análise econômico-financeira.

Ao mesmo tempo que os investidores têm aumentado o foco em “investimentos responsáveis”, as empresas têm se movimentado para adotar práticas ESG e acompanhar o movimento do mercado financeiro e, principalmente, o maior engajamento de seus consumidores. O maior acesso à informação e a mudança de comportamento das novas gerações tem impulsionado ainda mais a agenda sustentável das companhias. Além disso, uma pressão maior de diversos governos ao redor do mundo tem acelerado estas mudanças. 

No Brasil, o tema demorou para chegar e a discussão ainda é embrionária dentro de muitas diretorias e conselhos de administração. Este, definitivamente, não é o caso da Natura. 

A Natura foi fundada em 1969 por Luiz Seabra. Já em 1983, a Natura se tornou a primeira marca de cosméticos no Brasil a oferecer refil. Em 1995, criaram a linha Crer Para Ver, cujo lucro é revertido em ações para melhora da educação no país. Em 2006, baniram testes de produtos e ingredientes em animais. Em 2007, criaram o Programa Carbono Neutro com metas de redução das emissões de gases de efeito estufa em toda a cadeia produtiva. Em 2011, lançaram o Programa Amazônia, com o objetivo de direcionar investimentos para a região. E estas são apenas algumas das iniciativas socioambientais ao longo dos anos, muito antes do tema ficar tão em evidência. 

Mas vamos destrinchar algumas das iniciativas da empresa nos 3 temas do ESG: 

Environmental:

  • Floresta Amazônica: Há mais de 20 anos, a empresa tem relacionamento com fornecedores locais na Amazônia e busca conciliar a proteção ambiental ao progresso social e econômico. A atuação da empresa com os pequenos fornecedores locais contribuiu para a conservação de 2 milhões de hectares de floresta. A empresa construiu o Ecoparque, um Centro Tecnológico no meio da floresta, para pesquisar ativos e gerar negócios para a região. A estratégia da empresa é gerar valor da floresta em pé, dando apoio a pequenos fornecedores locais e gerando progresso e renda para a comunidade local. Em 2014, a Natura foi a primeira empresa de capital aberto a receber o certificado B Corp, que significa que integram uma rede global de empresas que associam crescimento econômico à promoção do bem-estar social e ambiental. Para 2030, sua meta é chegar em 3 milhões de hectares conservados.

  • Emissões de gases efeito estufa: A empresa é Carbono Neutro desde 2007. As emissões que não podem ser evitadas, a empresa compensa com a compra de créditos de carbono de projetos que geram benefícios sociais e ambientais. A empresa tem a meta de ser “net zero” até 2030.

  • Testes em Animais: A Natura não testa e não compra insumos ou ingredientes que tenham sido testados em animais desde 2006. Em 2018, foi a primeira empresa da América Latina a receber o certificado pela Cruelty Free International, uma das organizações mais antigas e respeitadas na luta pelo fim dos testes em animais.

  • Gestão de Resíduos e efluentes: Desde 1983, a empresa oferece refil de seus produtos. Anualmente, reutilizam por volta de 665 toneladas de plástico nas embalagens. Foram os primeiros a adotar vidro reciclado na perfumaria. Possuem meta de 100% de todo o material de embalagens ser reutilizável, reciclável ou biodegradável até 2030. Meta de 95%+ de ingredientes naturais ou renováveis.

Social:

  • Consultoras: a maior fortaleza da Natura é a sua rede de ~8 milhões de consultoras espalhadas pelo mundo. A venda direta é uma grande rede social e a Natura tem focado cada vez mais em agregar valor na vida destas consultoras. A Natura mede o IDH de sua rede desde 2014 e identificam diversos pontos de atenção e o que podem melhorar na vida profissional e pessoal das representantes. Um dos pontos que identificaram neste período era a baixa bancarização das consultoras e para isso, criaram o Natura Pay. A empresa tem convênio para dar descontos em medicamentos e consultas para a sua rede e seus familiares. Além disso, dão acesso a muitos cursos para profissionalizar e dar maior acesso à educação, de forma geral. A empresa possui meta para 2030 de ganhos mensuráveis das consultoras em renda, educação, saúde e inclusão digital.

  • Inclusão e Diversidade: A empresa busca usar sua capilaridade e relevância para trazer discussões importantes de inclusão e diversidade a todos os brasileiros. Além disso, a empresa já conta com 48% de mulheres na alta liderança e no conselho e tem meta de chegar a 50% até 2023 (estavam em 35% quando comunicaram a meta) e com salários equitativos. Além disso, querem evoluir para 30%, em níveis de gerência, a representatividade de grupos sub-representados – raciais ou étnicos, diversidade sexual e identidade de gênero (LGBTI), pessoas em posição de vulnerabilidade socioeconômica, com deficiência física ou mental.

  • Relações com comunidades extrativistas: Nos mais de 20 anos que a Natura está presente na Amazônia, a empresa criou um forte relacionamento com 40 comunidades locais e gera renda para mais de 8 mil famílias na região. A empresa tem metas de aumento de renda, educação, saúde e inclusão digital para as comunidades fornecedoras. Além disso, tem metas em relação à intolerância à violação dos direitos humanos na cadeia de suprimentos: Certificação e/ou rastreabilidade integral das cadeias críticas até 2025. 

Governance: 

  • Independência do Conselho: A Natura possui 13 membros em seu conselho de administração. Dentre eles, 9 são conselheiros independentes.

  • Política de remuneração: A empresa conta com remuneração fixa e variável atrelada a metas individuais e conjuntas da companhia. Além disso, toda a alta liderança tem metas ligadas às iniciativas ESG.

  • Diversidade:  25% do conselho de administração é composto por mulheres. Aumentar a diversidade de uma empresa pode ser transformacional. No estudo da McKinsey “A Diversidade como Alavanca de Performance”, vemos que empresas com maior diversidade de gênero na equipe executiva apresentam rentabilidade 21% superior ao grupo com menor diversidade. Em relação à diversidade étnica, o grupo mais diverso tem rentabilidade 33% superior ao grupo com menor diversidade. A Natura segue traçando o caminho para aumentar a representatividade em seu conselho e diretoria. As metas definidas pelo grupo de aumentar a diversidade até 2030 dão o tempo necessário para a empresa encontrar as melhores pessoas para cada um dos assentos. 

O investidor que busca ser mais ativo neste tema precisará ter cuidado ao selecionar as empresas sustentáveis, ficando atento ao contraste entre o que as empresas pregam e o que de fato entregam. O greenwashing, ou empresas que fingem ser sustentáveis, tem crescido conforme o tema ESG ganha relevância. Existe ainda o risco de empresas se perderem na estratégia tentando apenas preencher o checklist do ESG, que precisa estar na essência da organização.

No caso da Natura, além da comunicação das metas sustentáveis, para reforçar o comprometimento ESG, a empresa emitiu US$1 bilhão em bônus sustentáveis no início de maio com meta de redução de 13% nas emissões de gases efeito estufa e adoção de uso de embalagens recicladas em pelo menos 25% dos produtos da marca. São diretrizes em linha com a visão de sustentabilidade de 2030 da empresa. Se a Natura não alcançar estas metas, ela paga uma multa aos investidores. A demanda por estes papéis foi de 4x a oferta.

Conforme caminhamos para um “novo capitalismo”, onde muitas empresas buscam gerar valor para todos os stakeholders (acionistas, fornecedores, clientes, colaboradores e demais grupos de interesse) e sociedade, e não somente para os acionistas, o mercado financeiro continuará se adaptando. O prêmio pago por empresas ESG deverá ficar cada vez mais evidente, conforme as métricas e controles evoluem. 

A Natura praticamente nasceu sustentável e vem usando o desafio da sustentabilidade como forma de inovação e diferenciação. O grupo que atua em mais de 110 países, com mais de 3,7mil lojas, 35mil colaboradores e 8 milhões de representantes e consultoras tem como propósito a geração de impacto positivo, que vai além da rentabilidade. 

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